Belém, 05 de Junho de 2008
Não sei a quem escrevo além de a mim mesma, mas é difícil explicar o que
cada viagem faz em nós mesmos, como as paisagens e pessoas nos marcam tanto.
Como o cotidiano de outrora é sempre tão vivo em nós, como pensamentos fulgazes
não são tão fulgazes assim...Sempre que, como antropóloga, sinto um vazio, são
novamente as palavras de Lévi-Strauss, que lidas me fazem sentir compreendida
como nunca fui.
“Nessa antinomia que opõe, de um lado, a profissão, e de outro, um
projeto ambíguo que oscila entre a missão e o refúgio, e que sempre participa
de uma ou de outro, sendo ora uma ora outro, a etnografia ocupa decerto um
lugar privilegiado. É a forma mais extrema que se possa conceber do segundo
termo. Sempre se considerando humano, o etnógrafo procura conhecer e julgar o
homem de um ponto de vista elevado e distante o suficiente para abstraí-lo das
contingências próprias a esta sociedade ou àquela civilização. Suas condições
de vida e de trabalho o isolam fisicamente de seu grupo por longos períodos;
pela brutalidade das mudanças a que se expõe, ele adquire uma espécie de
desarraigamento crônico: nunca mais se sentirá em casa, em lugar nenhum,
permanecerá psicologicamente mutilado. Como a matemática ou a música, a
etnografia é uma das raras vocações autênticas. Podemos descobri-las em nós,
ainda que não nos tenha sido ensinada por ninguém.” (Claude Lévi-Strauss, 1996).
(Como se Faz um Etnógrafo In Tristes Trópicos)
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